quando cabe um até logo

Vó,

Hoje é um dia triste. Acordei com a notícia de que você não resistiu a mais uma pneumonia. Logo você que por 95 anos foi a pessoa mais forte que eu já conheci. A verdade é que você já estava querendo dizer tchau há um tempo, né? Seria egoísmo nosso querer ter a sua presença física conosco quando há bastante tempo sua cabeça já não tava 100% com a gente.

Mas não quero falar disso. Quero celebrar você! Quero te contar com o coração transbordando de um misto de tristeza – que vai passar – e amor porque você foi tão incrível na minha vida. Minha segunda mãe. Uma das pessoas que mais sabia demonstrar amor e generosidade.

Fico aqui lembrando de todas as vezes em que você foi essencial na minha vida. Minha infância se resume a você e o vovô no sítio. Como ter qualquer outra lembrança da infância que não fosse fazendo farra aí? E por isso, eu te agradeço! Por ter me proporcionado tanto.

Minha infância teve cheiro de comida caseira, de suspiro e cocada assada, barulho de máquina de costura e bagunça na piscina aos domingos. Minha infância teve fruta no pé daquelas que ninguém nunca ouviu falar, cachos de banana e correnteza de rio. Teve lugar para correr, teve ninho de Páscoa, roupas costumizadas para minhas Barbies e teve geléia feita por você. Damasco era minha favorita, lembra? Minha infância teve flores, grama, balanços e bicicletas.

Fecho os olhos e ainda posso sentir o cheiro dos seus bolos quentinhos à tarde na piscina, o pedal da sua máquina de costura, você chamando a gente para jantar antes da novela. São tantas lembranças que inundam meu coração que fica até difícil falar. As sessões de Rei do Gado na sala enquanto eu e minha irmã jogávamos Jogo da vida, as intermináveis partidas de buraco, os almoços de domingo na mesa das crianças, as histórias antes de dormir, todas as aventuras do pequeno vampirinho, as idas ao supermercado em Miguel Pereira que vocês deixavam o carrinho ser composto 90% de balas e chicletes, as férias de julho no sítio.

Tudo isso eu devo a você.

Meu coração se aperta, vó, porque vivemos muitas coisas lindas e hoje dá saudades. Mas eu só tenho a agradecer por você ter me proporcionado um mundo na infância que a cidade grande não me proporcionaria. Uma cidade pequena em que eu podia andar de bicicleta e ir sozinha para padaria, viver sem telefone até meus 13 anos, sem internet. Aprendi na sua casa a ser menos medrosa, a tirar carrapato da pele, a andar sem rodinha na bicicleta, a fazer colar de miçanga e a pintar vasos para suas bromélias.

São tantas lembranças que não cabem aqui. Talvez caibam futuramente num livro, afinal o mundo precisa conhecer o Morro Azul que eu conhecia. A Sofia precisa saber que ela tinha uma bisa e tanto. Todas as vós deveriam pegar referências com você.

Comecei a chorar de novo escrevendo, porque despedidas sempre foram tristes. Desde ir embora do sítio aos domingos depois do lanche até te ver envelhecendo. Sempre soubemos que esse dia chegaria e eu sempre rezei para que você fosse sem sofrer. Só me corta o coração não poder estar junto agora.

Não há despedida para quem mora nas lembranças e no coração, né? Divirta-se nessa nova etapa da vida, aí com vovô. Você é eterna, meu anjo.

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