pai musical

As lembranças que tenho do meu pai são em sua grande maioria musicais. Dá para montar uma lista no Spotify só do que me remete a ele. Cat Stevens, Carly Simon e Joni Mitchell são alguns dos cantores que ele me apresentou e hoje adoro, mas seria impossível fazer uma lista precisa.

Lembro de escutar algumas músicas na época e ficar me perguntando que raios aquilo significava.
Uma que eu e minha irmã sempre rimos é Paisagem na Janela, do Milton Nascimento.

Ele é um daqueles caras cultos, sabe? Culto de tudo. Entende de bobagens mil até os mais cabulosos cálculos, já que é o melhor engenheiro que conheço.
E música é definitivamente a praia dele. Não toca nada de instrumento, mas tem uma bagagem musical de dar inveja.

Todas as nossas viagens de carro na infância, adolescência e vida adulta foram musicalizadas por ele. Ele tinha vários mixed cds, inclusive uns que eram específicos para mim. Aí ele colocava Beatles e muitas outras músicas que ele curtia e sabia que eu curtia também.

Lembro de acordar aos domingos e ter música clássica tocando na sala. Eu levantava e ele tava lá fazendo as coisas dele e escutando música num volume alto. Ele tinha uma coleção de cd de música clássica todos de capa azul com amarelo. Acho que veio em alguma revista daquelas em fascículo, sabe? Ele tinha também uma coleção absurda dos mais variados discos, alguns dos quais hoje herdei orgulhosamente <3

Os discos ficavam num armário da sala que fazia um barulhão para abrir e volta e meia, ele tirava de lá, limpava. Era fofo ver o cuidado com esses discos.
Hoje em dia, ele também é antenado com spotify e sempre procurou as mais diversas músicas na internet.

Sempre que tava triste aqui em Brasília, colocava um disco dele para tocar ou alguma música do Cat Stevens. Aí pensava nele, sentia o cheiro e os sons dos domingos da infância.
É aquele sabor meio amargo da saudade. De quando a gente descarrou cedo, mas ainda sente saudades da infância, da época sem responsabilidades, em que tudo que tinha que fazer era me dar bem na prova de geometria. Inclusive, matéria que meu pai me ensinava com alguma paciência, mesmo meus resultados não sendo dos melhores.

Apesar de não ser nem um terço da pessoa musicalizada que meu pai é, eu sempre senti que tínhamos na música uma conexão particular. Na época em que ter gravador de cd no computador era raro e caro, eu ia todos os sábados com meu pai pro escritório dele no Centro do Rio gravar cds no computador dele. Depois almoçávamos no McDonalds. Essa era a mesma época dos queridos diskmans.

Meu pai nunca impôs seu gosto musical. Quando éramos mais novas, não lembro dele escutar as nossas músicas. Mas quando fomos ficando mais velhas, tinha sempre um momento em que ele permitia a playlist da Marcela que era um pouco mais de bom gosto que a minha. Apesar dos “ensinamentos” do meu pai, nunca fui muito boa montando listas de música. A minha conta no Spotify é uma prova disso. Misturo tudo.

O meu pai é um cara mais fechado. Mais na dele. Não é de grandes demonstrações de afeto.
Mas sinto que na música ele se permite esse lado sensível. Se entrega. É bonito de ver. É legal saber que essa é uma herança dele para mim.

 

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