o que queremos ser e somos

A gente vai chegando perto dos 30 anos e algumas desculpas ficam mais difíceis de engolir, algumas verdades mais difíceis de encarar e finalmente, algumas coisas ficam mais difíceis de administrar.

Não tô falando necessariamente dos compromissos financeiros que assumimos, das contas para pagar ou das prestações do carro, da insistente falta de tempo num dia de 24 horas ou da dificuldade cada vez mais óbvia de perder peso como se tudo ainda estivesse exatamente no mesmo feliz lugar dos 20 anos.

Não.
Essas são só algumas das consequências que aceitamos que fazem parte do processo de envelhimento.
O que é mais penoso, porém, é que independente da idade que temos sempre teremos dificuldade de administrar tantas expectativas. Como se não bastassem as nossas, ainda têm dos outros.

As expectativas do nosso eu adolescente utópico que achava que com essa idade já seríamos CEO de uma empresa, mãe de 3 filhos e muito bem casada. Além de muito rica, magra e estilosa. Expectativas dos nossos pais que ainda se referem à a gente como crianças, mas cobram todas as responsabilidades de adulto, e no fundo só querem a nossa felicidade. E por aí vai. Chefes, amigos, namorados…

Essas expectativas macros são aquelas que nos conformamos que nunca vamos nos igualar ou superar. Vamos lidando.
Difícil são as micros. Do dia a dia. Da correria. Aos quase 30, percebemos que temos que correr atrás do prejuízo. Literalmente correr. Isso significa acordar 3 horas mais cedo do que a hora que você deveria estar no trabalho para dar conta de malhar, tomar banho, se arrumar, organizar a lancheira, chegar no trabalho no horário e ainda garantir pró-atividade, metas batidas e soluções inteligentes.

Nem sempre teremos o emprego dos sonhos com vaga na garagem e vista bonita. A realidade muitas vezes é um emprego que paga as contas, cheio de trâmites burocráticos que só faz de nós meros colaboradores. Porque funcionários está fora de moda. A verdade é que de um grupo de 10 amigos,  provavelmente 2 estarão satisfeitos. E não estou falando de pessoas que reclamam por reclamar. Estou falando de pessoas que precisaram encarar a vida e por conta disso não podem se dar ao luxo de escolher o emprego pela ideologia.

A minha maior frustração hoje em dia é perceber que meus dias se resumem a acordar, malhar, trabalhar e dormir. Os finais de semana passam voando. Fico dias sem conseguir ver TV ou ler um livro. Só vejo mais meu namorado porque moro com ele, mas ainda assim têm dias que mal conseguimos planejar saídas ou projetos futuros. Somos engolidos pelo rolo compressor do cotidiano. Da rotina. Do corre e corre que é ser adulto.

Ontem me permiti míseras 3 horas à toa. Jogada em frente a TV. Descobri uma série nova no netflix e isso me deu uma felicidade tão grande que foi até esquisito. É foda conseguir se dividir entre sonhos e responsabilidades. Entre compromissos e preguiças. E sempre é preciso escolher e priorizar. Mas, principalmente, é importante saber que não dá para ser super herói. E tudo bem.

Tenho uma pilha de livros que gostaria de ler, outra de livros para reler. Lista de séries para terminar e outras para começar. Filmes recomendados, filmes clássicos que nunca vi, projetos para tocar e idiomas para aprender.

E esse caos é a vida. É foda crescer. Porque do mesmo jeito que é tão bom ter as rédeas da própria vida, saber a hora que chega e que sai, saber o que pode ou não comprar, quando pode ou não viajar, se pode ou não beber e etc, é foda pensar que na maioria das vezes estamos só tentando de forma bem atrapalhada ser a nossa melhor versão.

E quer saber?
Chegar aos 30 não é fácil, mas está sendo delicioso. Acho que finalmente estou me percebendo como adulta. Antes me sentia meio deslocada num corpo com tantas responsabilidades. Pensava: “como cheguei até aqui?” Hoje sinto que tenho projetos de “gente grande”, estou noiva com casamento marcado e me sinto em transformação.

 

 

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