O dia em que perdi minha mãe

Eu tinha 7 anos e estávamos na Disney. Viagem mega sonhada por qualquer criança e lá em casa foi sonhada pelos adultos também, já que minha mãe nunca tinha ido pros EUA.

Falando em mãe, a minha sempre foi descolada. Nos EUA, mal falava inglês e estava ela lá comprando o nosso lanche. Resolvia tudo sozinha. Comprava carro, gerenciava obras, cuidava da casa, das duas filhas, fazia projetos para a casa de clientes, ainda nadava todos os dias, andava na Lagoa, cozinhava, inventava penteados na gente e nos ajudava no dever de casa. Ela não é foda só por ajudar na casa. Não. Minha mãe nunca foi uma simples dona de casa. Ela era a gerenciador de tudo ao nosso redor. Ela era a pessoa que todos na casa dependiam.

Se comunicar nunca foi o problema dela. Ela se diz tímida, mas em menos de uma hora, ela é sua amiga. Ela é do samba, do pagode, da cerveja com gelo, da zueira. Desde sempre. Lembro do dia em que ela bêbada, cantou “Eu nasci há 10 mil anos” do Raul Seixas e tirou zero no karaokê, mas ela jura até hoje que estava arrasando.

Ela é carinhosa, exagerada, canceriana ao extremo.

Essa é minha mãe. Uma pessoa que acima de tudo acredita nela.
Então, imaginem a minha surpresa, quando minha mãe se perdeu na Disney. Vamos voltar um pouco mais no tempo.

Foi mais ou menos assim que lembro: ela entrou numa loja para comprar um presente, não escutou meu pai falando com ela que ia pegar o carro e quando olhou pro lado, ele não estava mais lá. Quem já foi para Disney, sabe a imensidão que são os estacionamentos lotados de vans parecidas, né?

Depois de um tempo esperando ela no carro, começamos a ficar preocupados. Meu pai foi atrás dela. Aquela decisão errada que nunca dá certo, porque se uma pessoa está perdida e a outra vai atrás dela, as chances das duas se desencontrarem é gigante. Meu pai até fala inglês, minha mãe enrola. Imagina desesperada, então? Não teve ter saído nada.

Lembrando que naquela época, não tínhamos celular. O que tornava o rolê bizzaramente mais complicado.

Minutos depois, que mais pareceram horas, meu pai voltou com ela. Ela estava cabisbaixa, chorando.
Foi a primeira vez na minha vida que lembro dela assim. Cabisbaixa chorosa.

Acho que por um momento, achei que fosse perdê-la. Fiquei com medo de não acharem ela, do parque fechar, de escurecer. Coisas de criança, né?

Mas acho que no fundo foi bom para eu perceber ali que minha mãe era humana. Ela se fazia de superheroína, gostava de resolver tudo para todo mundo, até hoje é assim. Mas vi ali naquele momento, ela frágil. Ela menina. Ela insegura.

Perdi a mãe super mulher e ganhei uma mãe real. Com defeitos, qualidades, inseguranças, medos.
Meu maior exemplo de amor é ela. Mesmo que de um jeito que eu nem sempre, concorde. Mas é.

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