lovemojitos entrevista…

Letícia Magalhães, 31 anos, gestora de marca da Malha.

A Malha é uma ideia revolucionária. Fiquei encantada com a proposta e queria dividir com vocês.
Segundo o site, a Malha é uma plataforma que conecta criadores, empreendedores, produtores, fornecedores e consumidores pela construção de uma moda sustentável, colaborativa, local e independente. Para isso, eles disponbilizam espaço e meios de produção. É uma mistura de espaço de coworking e de cosewing, uma comunidade, uma escola e um laboratório de experimentação.

LoveMojitos: Como foi o processo de criar a Malha? A ideia ainda é muito nova e aposto que tem muita gente no mundo da moda que torce o nariz. Como foi esse processo de engajar as pessoas?
A Malha foi desenvolvida num processo 100% colaborativo desde o começo – um teste que nem nós sabíamos que podia dar tão certo. No ano passado, nós convidamos algumas pessoas do mercado de moda pra um almoço no Templo a fim de trocar ideia sobre o momento da moda. Se não me engano compareceram umas 13 pessoas e foi tão legal que esse almoço virou outro, depois outro, foram se juntando outras pessoas e daqui a pouco já tinham sido alguns meses de um monte de gente boa se reunindo e pensando em soluções pros maiores problemas que as marcas pequenas de moda enfrentam. Foi desses encontros que surgiu a vontade de um manifesto pela sustentabilidade na moda, a ideia de um galpão em São Cristóvão e até o nome Malha. Depois de 3 meses de conceituação, chegou aquele momento do “bom, e agora?” e nós do Templo resolvemos botar a ideia de pé. O André Carvalhal (que já participava dos encontros) comprou a ideia com a gente e assim nasceu a Malha. Temos uma camada de fundadores que são as pessoas que participaram do processo desde o começo.
Ter sido um processo totalmente colaborativo e feito por pessoas do mercado nos ajudou muito – sabemos que nasceu de necessidades reais de quem trabalha com moda. O mercado ainda é muito pouco colaborativo, mas a recepção das pessoas nos surpreendeu muito. Temos tido muito apoio e estamos recebendo um carinho enorme de quem cruza o nosso caminho. Lá em abril, nós anunciamos a chegada da Malha e muita gente nos procurou querendo se conectar – antes mesmo de abrir, acabamos nos mudando pra um espaço maior pra caber todo mundo 🙂 Acho que a moda estava muito carente de um projeto realmente aberto, colaborativo e que preze pela sustentabilidade. Aos poucos, percebemos que a Malha não é um galpão, é um movimento que conecta todas as esferas de um mercado que precisa se reinventar já. Quem torce o nariz pra essas mudanças vai precisar se atualizar!
LoveMojitos: Vocês falam em parceiros e investidores. Há alguns parceiros que são marcas grandes da moda. Como eles reagiram a ideia? E como apoiam a Malha?
Como falei ali em cima, temos uma camada de fundadores que acompanhou e ajudou a criar o projeto desde o começo. São pessoas super presentes e que têm sido parceiríssimos em montar os próximos passos da Malha, como a Escola, que no segundo mês de vida já recebeu cursos e palestras dos fundadores Renata Abranchs (RioEtc e Bureau de Estilo) e Caio Braz, por exemplo. Além disso, a Malha foi aberta inteiramente com capital próprio, patrocínios e pré-venda – não temos investidores; fazemos questão de nos manter independentes. Algumas grandes marcas como a Reserva e a Farm nos deram esse gás com parcerias antes mesmo de abrirmos.
LoveMojitos: A Malha tem como filosofia integrar todo o processo da moda – tanto coworking, com designers, etilistas, maquinário, etc. Isso é um modelo visto no exterior? Vocês se basearam em algum outro exemplo?
Nós já acompanhávamos o modelo de cosewing, que são espaços de ateliê de costura compartilhados que têm ganhado força pelo mundo. No entanto, esses espaços tendem a ser pequenos cafés para pessoas que têm o hobby de costurar – algo bem diferente da Malha, que tem uma fábrica industrial compartilhada. Aqui no Brasil já existem alguns coworkings de moda como a XXVinte no Rio e o Lab Fashion em São Paulo, mas não conhecemos nenhum modelo que englobe tantas frentes. Por aqui, além de escritórios/ateliês e a cofábrica, temos estúdio fotográfico, restaurante/bar, lojas popup, showroom, incubação de novas marcas, Escola de moda e toda uma parte de suporte às vendas das marcas residentes está sendo construída – temos uma popup atualmente no Shopping Rio Design Barra, esse mês rola a primeira Feira da Malha e em breve sai o nosso ecommerce.
Um mês antes da abertura da Malha fomos citados pelo PSFK, um dos maiores portais de tendências do mundo, e descobrimos o Manufacture NY, que acredito ser hoje a única coisa parecida com a Malha no mundo. Somos a maior plataforma de moda da América Latina.
LoveMojitos: Esse processo de conscientização na moda ainda é relativamente recente. Apesar de importante, o mundo ainda está na contramão. Há um consumo excessivo ainda. Como vocês analisam o futuro da moda nessas condições?
Não diria que vamos ver o fim do consumo tão cedo, afinal essa é uma mudança estrutural que depende de vários fatores, mas acho que o excesso está matando um dos maiores pilares da moda que é ser um veículo para a autoexpressão. Vemos cada vez mais pessoas dizendo que não se sentem representadas pelas marcas, seja por todas obedecerem ao mesmo padrão estético ou porque não compartilham dos valores dos consumidores, cada vez mais preocupados em saber a procedência daquilo que compram e em passar uma mensagem. Numa era pós-produto, onde as pessoas compram experiências e identificação mais do que objetos, não faz sentido que as marcas continuem num modelo obsoleto de produzir e comercializar roupas pra quem não precisa delas.
Acho que o futuro da moda está numa mudança total de modelo. Não vai adiantar só incluir tecidos orgânicos na produção e achar que isso te transforma em uma marca sustentável. Será preciso repensar os modelos de produção e distribuição; assim como ressignificar a moda, que deixa de ser vestuário e passa a ser toda forma de expressão do si. As marcas que vão se dar melhor serão aquelas que entenderem que em vez de ditar regras, a moda servirá como ferramenta para que cada pessoa possa se representar à sua própria maneira.
LoveMojitos: E o que a Malha pretende daqui para frente? Qual seria hoje a maior ambição da Malha?
Temos grandes planos! Nosso foco do momento é abrir todas as frentes de atuação da Malha – em breve teremos uma parte digital pra nos conectarmos com gente de todo o Brasil! A longo prazo, queremos ver esse movimento ganhar força e mobilizar pessoas e marcas para agir pela construção de um mundo mais sustentável em todos os âmbitos (ambiental, cultural, econômica e socialmente). Queremos fazer isso com leveza e calma, aproveitando cada passo do caminho e somando forças com todos que estiverem nessa causa com a gente.
Herman Bessler (28), fundador do Templo e da Malha, complementa: “Que a relação do eu com o mundo se torne mais genuína, mais saudável, mais harmônica. Que a moda se torne o exercício da liberdade e ferramenta de transformação de realidades ao invés de servir aos caprichos do ego e perpetuar relações perversas com o ambiente e a sociedade de consumo.”
Para quem quiser conhecer:
MALHA
Rua General Bruce, 274 – São Cristóvão
Rio de Janeiro, RJ
Nosso galpão é aberto a todos de 2a a 6a das 9h às 18h – só chegar.

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